Manchete Notícias Sarandi

A cadeia de Sarandi tá lotada, e não há luz no fim do túnel

Número de presos é 3,7 maior que o máximo permitido. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com
Número de presos é 3,7 maior que o máximo permitido. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com

A tarde na cadeia pública de Sarandi foi de reunião. Dois presos “frente de galeria” e a chefia de carceragem discutiram pauta à fim de garantir melhorias para o cumprimento da pena nas celas superlotadas. São 171 detentos onde deveria haver no máximo 46.

Os “frente de galeria” são eleitos para representar os demais presos do “convívio”. No pátio, o anseio por novidades tem trilha sonora: Facção Central. Todos esperam o “bonde”, a transferência para um presídio, na linguagem da cadeia.

A lei proíbe a permanência de presos em delegacias, mas isso não impede o Estado do Paraná de manter 103 detentos já condenados na cadeia de Sarandi. Dos 171, apenas 54 são provisórios, segundo a carceragem.

A juíza daqui só sabe condenar, mas não autoriza transferência – criticou R., 31 anos, o “frente” da galeria 2, onde convive com outros 52 presos. O espaço tem quatro celas com quatro “jegas” (camas) cada, que são dividas por dois presos.

Essa cadeia é um barril de pólvora, então a gente pede essas reuniões com eles (carcereiros) para tentar amenizar para ambos os lados. Nossa vida não vale nada para ela, mas e as dos policiais? – questionou R.

Condenado por posse de arma, e preso desde novembro de 2015, R. se referiu à juíza da 1ª Vara Criminal de Sarandi. Essa é a segunda passagem dele pela cadeia de Sarandi. Em 2013 ele foi preso por homicídio.

Ao lado de R., J., de 22 anos, representa a galeria 1. Preso há um ano e dois meses, ele já foi condenado por latrocínio – agiu num roubo a joalheria de Sarandi, em novembro de 2015. Eles pedem “atenção” à “situação” da comida servida aos detentos nas datas festivas de fim de ano.

A reunião acaba. R. e J. retornam às galerias para informar aos demais sobre a conversa com a chefia de carceragem. Eles tem outra missão: garantir lugar para mais dois presos que acabaram de ser detidos pela PM (Polícia Militar) e Guarda Municipal, nesta quinta-feira (1). Ninguém foi transferido.

Presas também aguardam transferência. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.
Presas também aguardam transferência. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.
Corredor vira área comum na cadeia de Sarandi. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.
Corredor vira área comum na cadeia de Sarandi. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.

Superlotação

A crítica à superlotação da cadeia de Sarandi não é exclusiva dos presos. O delegado titular do município, Reginaldo Caetano, apontou que a não transferência prejudica, inclusive, o trabalho de investigação de crimes.

A Sesp (Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária) do Paraná reconheceu a superlotação nas delegacias do estado. “A Sesp acredita que a solução para o caso de superlotação é o início das obras de construção e ampliação (de presídios) – previstas para os próximos meses”.

Carcereiros e detentos buscam relação amistosa. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.
Carcereiros e detentos buscam relação amistosa. Foto: Angelo Miloch / SarandiPR.com.

A pasta também apostou no uso de tornozeleiras para detentos que tenham cometido crimes de menor potencial ofensivo. Leia, abaixo, a íntegra da nota da Sesp enviada ao SarandiPR.com:

“A Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná, assim como a direção da Polícia Civil e do Departamento de Execução Penal (Depen), estão cientes do problema de superlotação nas carceragens das delegacias do Estado. Importante salientar que já houve avanços: no início de 2011 a Polícia Civil gerenciava em torno 14.000 presos e hoje o número é de aproximadamente 9.500 presos.

A cúpula da segurança pública tem trabalhado para zerar o número de presos em delegacias. Semanalmente, o Comitê de Transferência de Presos (Cotransp), que conta com representantes do Poder Judiciário e do Ministério Público, autoriza a transferência de presos de delegacias para o sistema prisional. No entanto, as vagas só são abertas com a saída de presos e, para isso, é preciso autorização do Poder Judiciário.

Outro problema que resultou na superlotação foram três rebeliões ocorridas em 2014 e 2015 (PEC, PECO e PELII), que resultaram na perda de cerca de mil vagas nas penitenciárias. A Sesp acredita que a solução para o caso de superlotação é o início das obras de construção e ampliação – previstas para os próximos meses. Serão abertas cerca de 7 mil novas vagas com essas novas unidades prisionais.

Além disso, é uma alternativa a adoção das tornozeleiras eletrônicas para aqueles presos que cometeram crimes de menor potencial ofensivo e que passam a ser monitorados a partir do Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) da Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária. O número de presos monitorados subiu de 500 no início de 2015 para mais de 3,5 mil este ano – uma eficiente política de desencarceramento.”